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quarta-feira, novembro 30, 2022

ONG nascida em Canoas já capacitou 6 mil mulheres para trabalhar na construção civil

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Um dos setores que mais empregam no Brasil, a construção civil costuma ter mais homens do que mulheres ocupando suas vagas. Mas, se depender da ONG Mulher em Construção, isso já é coisa do passado – a entidade de Canoas, fundada por Bia Kern, trabalha desde 2006 capacitando mulheres para aprenderem desde o básico até técnicas avançadas nessa área. Em 16 anos, 6 mil novas profissionais se formaram nos cursos.

Os projetos ocorrem por meio de parcerias com empresas e órgãos públicos. Atualmente, por exemplo, há mulheres vinculadas à ONG trabalhando na restauração do Palácio Piratini, em Porto Alegre, enquanto uma turma tem aulas de noções básicas sobre construção civil, em Novo Hamburgo, e outra aprende a técnica da construção a seco, em Ivoti. A entidade também já desenvolveu trabalhos em outros Estados do Brasil. A prioridade é para mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

A relação de Nilza Gais, 45 anos, com a ONG Mulher em Construção é de longa data – em 2009, enquanto se preparava em um curso na Ulbra para o Enem, ficou sabendo que haveria um curso gratuito de pintura predial oferecido pela entidade. Sua participação na capacitação lhe rendeu uma carreira de mais de uma década no setor, encerrada em 2022, quando a profissional frequentou um novo curso promovido pela ONG, este focado em esquadrias. Seu desempenho foi tão bom que ela acabou contratada pela Zardo Esquadrias, empresa parceira da Mulher em Construção.

Eu queria uma nova experiência. Conversando com a Bia, ela sugeriu que eu fizesse esse (curso) de esquadrias e era exatamente o que eu queria: mudar de profissão, aprender outras coisas. O trabalho com esquadrias é muito bonito. Depois de pronto, tu fica feliz por ver o que fez — comenta Nilza.

Antes de a construção civil entrar na sua vida, a profissional já havia trabalhado como caixa de supermercado, entre períodos nos quais era dona de casa. Quando começou a trabalhar com pintura predial, identificava aquela como uma grande oportunidade, mas, ao mesmo tempo, temia não ser aceita, por ser mulher.

— No começo, foi difícil de os homens aceitarem uma mulher dentro de uma empresa de construção civil, mas foi o início de uma nova etapa. A partir dali, vieram outras mulheres. O mesmo acontece aqui nas esquadrias: eram só homens e, agora, tem duas mulheres, e acredito que vai ter mais. Isso abre portas para outras mulheres terem seu espaço — observa Nilza, que enxerga ganhos financeiros e de autoestima nessa inserção feminina.

Desafios

Apesar de enxergar este como um desafio ainda hoje, Bia concorda que o preconceito com a presença de mulheres na construção civil tem diminuído.

— As mulheres estão provando por elas, a partir do trabalho delas, que são capazes. Ainda são poucas as empresas que abrem espaço para profissionais mulheres, mas já estão abrindo, porque veem que elas têm muita capacidade de organização, sustentabilidade e comprometimento, especialmente as chefes de família — destaca a fundadora da ONG.

Um grande percalço é a falta de políticas públicas como a oferta universal de vagas em creches, que faz com que, por um lado, muitas mulheres não possam procurar um emprego e, por outro, empresas tenham receio de contratar uma mãe de filho pequeno. Outra dificuldade é a desconfiança dos próprios colegas homens.

Procuramos preparar os homens para receberem essas mulheres, falando do quanto é importante recebê-las como colegas. As empresas precisam entender que, quando o funcionário é bem tratado, a empresa toda anda melhor. Muitas vezes, o problema com as empresas é com os homens mais profissionais, que cometem assédio moral e até físico — cita Bia.

Construção a seco

O curso de construção a seco é uma novidade na ONG Mulher em Construção – atualmente, uma turma de oito alunas participa da formação, que envolve aulas diárias e vai até dezembro. A capacitação foi uma demanda trazida pela Visia Construção Modular, empresa de Ivoti. A ideia surgiu como parte da implementação de práticas de ESG – sigla em inglês que compreende ações que visam contribuir na construção de uma sociedade que reduza impactos ambientais e se responsabiliza pelo desenvolvimento mais equilibrado da sociedade e com as práticas de governança.

— Baseados no conceito de ESG, aliamos uma necessidade da empresa, de mão de obra qualificada, com a expertise da ONG na qualificação de mulheres para a construção. Com isso, formamos profissionais qualificadas para atender as demandas da nossa fábrica e possibilitamos que mulheres que não possuem uma profissão formal se insiram no mercado de trabalho, evoluindo como seres humanos e fazendo também nosso papel no desenvolvimento da sociedade — analisa o CEO da Visia, Alexandre Soares.

Durante o curso, Soares percebeu que as participantes buscam muito uma oportunidade, mas, para isso, precisam de uma porta de entrada no mercado de trabalho, que a Visia pretende oferecer. O empresário considera que, hoje, o grande desafio é proporcionar um ambiente de trabalho onde as pessoas se respeitem e formem um time, independentemente de gênero, orientação sexual, cor ou religião.

— Ainda há muito preconceito. Temos já muitas mulheres em nossa empresa, inclusive na fábrica de módulos, mas nunca fizemos um programa deste porte. Fizemos um trabalho de preparação com nossa liderança e nossos funcionários. Preparamos uma sala de treinamentos, compramos ferramentas novas e vamos construir um dos nossos módulos com elas. Será um treinamento teórico e prático — afirma Soares.

A coordenadora de Recursos Humanos da empresa, Andrea Roos, tem acompanhado de perto o processo junto com o CEO. A profissional conta que, na seleção para o curso, a Visia buscou mulheres de diferentes realidades.

— Nos enche de orgulho termos esse projeto na Visia. Dessa forma, aproveitamos para engajar nossos colaboradores em um mundo mais social e empático — complementa Andrea.

Nova oportunidade

Uma das estudantes é Jéssica Torres, 34 anos. Moradora de Novo Hamburgo, sempre teve curiosidade pela área da construção civil, na qual seu marido também atua, mas nunca teve a oportunidade de ingressar nela.

— Esse curso está quebrando um pouco os paradigmas de nós mesmas, por falta de informação e de ação. Já trabalhei no comércio, como atendente de padaria, em fábrica, em tecelagem, mas não me imaginava trabalhando nessa área, porque a gente vê mais acesso para os homens — revela Jéssica.

A participante diz que tem aprendido muito todos os dias – saiu do conhecimento de nível zero em construção civil e, agora, já tem noções de encanação, elétrica, como usar a trena e ferramentas, como as maquitas.

— Todo dia, a gente sai de lá feliz, porque aprendeu coisas que a gente não sabia. Isso deixa a gente com várias ideias boas para o futuro, até de outros cursos que a gente pode fazer depois, sobre outras técnicas. Abre um caminho amplo para se especializar nesse ramo — salienta a aluna, que se empolga com a ideia de trabalhar na Visia.

As estudantes são buscadas em casa por uma van. Durante as aulas, também ganham almoço e lanches.

Na construção a seco, via de regra, não há uso de água. Ou seja: não há argamassa ou cimento, por exemplo, com exceção da fundação da obra. Construções modulares utilizam muito a técnica, assim como estruturas que são suportadas por pilares ou colunas e são concluídas com paredes de gesso, ou dry walls.

 
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