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Edson Braga aponta processo produtivo como nova fronteira da indústria de alimentos

Empresário destaca fermentação, sensores, inteligência artificial e controle de processos como caminhos para melhorar alimentos dentro das fábricas

A próxima onda de inovação da indústria de alimentos pode acontecer longe dos olhos do consumidor. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, avanços em fermentação, enzimas, sensores, visão computacional, inteligência artificial e processos térmicos tendem a ganhar importância dentro das fábricas.

Esses recursos, porém, não deveriam ser o ponto de partida.

Na análise apresentada, a pergunta central continua sendo mais simples: o alimento ficou melhor?

Sabor, segurança, consistência, composição, desperdício, escala e preço precisam justificar qualquer mudança de processo.

Caso contrário, a empresa pode ter modernizado a operação sem necessariamente entregar uma inovação relevante ao consumidor.

A inovação pode ficar invisível para o consumidor

Um alimento aparentemente simples reúne uma série de variáveis que o consumidor não vê.

Proteínas, amidos, gorduras, água, microrganismos, enzimas, temperatura, pressão e estrutura interferem diretamente no resultado.

É nesse nível menos visível que parte da evolução do setor está acontecendo.

O consumidor não precisa conhecer os equipamentos, sensores ou modelos utilizados.

Ele percebe textura, aroma, sabor e regularidade.

Para Braga, esse é um dos critérios mais importantes para avaliar inovação: o processo pode ser complexo, desde que seu benefício apareça no produto.

Matéria-prima pode deixar de ser tratada como variável fixa

Um dos exemplos está em ingredientes tradicionais, como a farinha.

Lotes aparentemente semelhantes podem apresentar comportamentos diferentes durante absorção de água, mistura, fermentação, congelamento e assamento.

Em vez de apenas verificar se a matéria-prima está dentro de determinada especificação, sistemas de dados podem relacionar cada lote ao desempenho real no processo.

Isso permite uma mudança relevante.

A pergunta deixa de ser apenas se a farinha atende ao padrão e passa a ser qual configuração extrai o melhor resultado daquela matéria-prima específica.

Receita pode se tornar mais adaptativa

Essa leitura também desafia a ideia de receitas industriais completamente rígidas.

Se a matéria-prima varia, repetir exatamente a mesma quantidade de água, temperatura ou período de fermentação nem sempre garante o mesmo resultado.

Sensores e modelos preditivos podem permitir ajustes em hidratação, mistura e condições de processo conforme o comportamento observado.

A lógica é simples: uma fábrica mais inteligente não precisa necessariamente repetir todas as condições.

Precisa conseguir repetir o resultado esperado.

Essa mudança aproxima automação de conhecimento de produto, em vez de apenas padronização mecânica.

Fermentação e enzimas ampliam possibilidades

Processos conhecidos há séculos também estão ganhando novas aplicações.

A fermentação pode ser controlada de forma muito mais precisa a partir do conhecimento sobre microrganismos, metabolismo e formação de compostos.

Em vez de perguntar apenas quanto tempo um produto precisa fermentar, P&D pode definir quais características deseja desenvolver: aroma, acidez, estrutura, digestibilidade ou complexidade sensorial.

As enzimas seguem lógica semelhante.

Aplicadas com precisão, podem modificar amidos, proteínas, fibras e gorduras, contribuindo para textura, processabilidade e aproveitamento da matéria-prima.

Em determinados casos, mais conhecimento permite intervenções mais específicas e formulações mais simples.

Congelamento precisa entrar no desenvolvimento desde o início

Outro ponto destacado é o congelamento.

Tratá-lo apenas como método de conservação pode limitar seu potencial.

Velocidade de congelamento, formação de cristais, distribuição de água e comportamento dos ingredientes interferem diretamente na estrutura do alimento.

Por isso, produtos destinados ao congelamento deveriam ser desenvolvidos desde o início considerando também descongelamento e regeneração.

A análise precisa chegar até aquilo que o consumidor efetivamente coloca no prato.

Um produto excelente antes de congelar, mas que perde textura ou sabor depois da preparação final, não entregou integralmente aquilo que foi desenvolvido.

Sensores podem transformar controle em prevenção

Visão computacional e ferramentas analíticas também podem modificar o controle industrial.

Câmeras instaladas em linhas de alta velocidade conseguem acompanhar formato, dimensão, cor, cobertura e outros atributos em grande escala.

O ganho mais relevante, porém, pode não estar apenas em rejeitar unidades fora do padrão.

Mudanças graduais podem indicar problemas de temperatura, umidade, matéria-prima ou equipamento antes que o desvio se torne crítico.

A mesma lógica aparece em manutenção preditiva.

Vibração, som e temperatura de motores, bombas e misturadores podem indicar desgaste antecipadamente.

Uma falha de equipamento não afeta apenas produtividade. Pode interferir em dosagem, mistura, selagem e características do alimento.

A próxima qualidade pode ser preditiva

A indústria tradicionalmente produz, coleta amostras, analisa e depois decide.

Com mais dados disponíveis, parte desse processo pode se tornar preditiva.

Se determinadas combinações de temperatura, umidade, pressão ou velocidade antecedem um problema conhecido, a fábrica pode agir antes que o produto saia do padrão.

Isso reduz retrabalho, desperdício de matéria-prima, consumo de energia e perdas produtivas.

O controle deixa de servir apenas para identificar falhas.

Passa também a ajudar a evitá-las.

Ciência sensorial continua no centro

Apesar da expansão dos sistemas de medição, Braga chama atenção para um risco: construir fábricas capazes de medir quase tudo, mas esquecer aquilo que o consumidor percebe.

Umidade, pH, temperatura e cor podem estar dentro das especificações e ainda assim resultar em um alimento pouco atraente.

Por isso, dados instrumentais precisam ser relacionados a testes sensoriais, preferência e recompra.

Se determinada combinação de textura, umidade e estrutura estiver associada a maior aceitação, a fábrica passa a ter parâmetros mais objetivos para proteger aquela característica.

O objetivo não é substituir o paladar por números.

É utilizar medições para preservar aquilo que o paladar valoriza.

Inovação precisa servir ao produto

Para Edson Braga, a indústria tende a integrar cada vez mais biotecnologia, fermentação, inteligência artificial, automação, ciência sensorial e engenharia de processos.

O desafio será evitar que o fascínio por novas ferramentas se torne um objetivo em si mesmo.

Antes de escolher qualquer recurso, empresas precisam definir o que desejam melhorar.

Pode ser sabor, segurança, consistência, redução de desperdício, escala ou acessibilidade.

A solução técnica vem depois.

A inovação relevante não será aquela que utiliza o recurso mais sofisticado, mas a que consegue transformar conhecimento em um alimento perceptivelmente melhor.