3 de novembro de 2026
Tecnologia

Bruna Ribeiro Santana a Inteligência artificial na advocacia e os cuidados para economizar tempo

A inteligência artificial passou a fazer parte das discussões sobre produtividade nos escritórios de advocacia. Organizar documentos, estruturar perguntas e preparar versões iniciais de textos são algumas possibilidades que despertam interesse. O ganho de tempo, entretanto, depende de uma rotina de revisão capaz de identificar informações incorretas e preservar o sigilo de quem procura orientação jurídica. Produzir mais rapidamente só faz sentido quando o trabalho mantém qualidade e responsabilidade.

Para profissionais da advocacia, como Bruna Ribeiro Santana, a transformação digital traz uma questão prática: como aproveitar ferramentas digitais sem transferir a elas decisões que exigem interpretação profissional. A tecnologia pode oferecer apoio, mas a análise do contexto, dos documentos e das consequências de uma medida continua dependendo de avaliação humana. Uma resposta convincente na aparência pode conter erros difíceis de perceber numa leitura apressada.

Onde a tecnologia pode ajudar

Um primeiro uso possível está na organização de materiais que já passaram por conferência. Depois de receber documentos de uma consulta, o escritório pode elaborar um roteiro com datas, acontecimentos e perguntas pendentes. Esse trabalho exige atenção ao ambiente utilizado: informações pessoais ou confidenciais não devem ser inseridas indiscriminadamente em ferramentas externas. Antes de qualquer adoção, é necessário conhecer as condições do serviço e as regras profissionais aplicáveis.

Estão em jogo o dever de sigilo profissional previsto no Código de Ética e Disciplina da OAB (arts. 35 a 38) e as regras da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018)

Também é possível usar essas ferramentas para melhorar a redação de comunicações administrativas, sem incluir dados reais de clientes. Um aviso sobre horário de atendimento ou uma explicação geral sobre o envio de documentos pode ganhar clareza com apoio tecnológico. O responsável precisa verificar se o texto final expressa exatamente o que o escritório pretende comunicar. Uma frase acrescentada automaticamente pode criar uma expectativa que não corresponde ao serviço contratado.

Na pesquisa jurídica, a exigência de verificação aumenta. Referências apresentadas por sistemas de linguagem precisam ser localizadas em fontes oficiais. É necessário conferir a existência do julgamento, seu conteúdo e sua relação com o problema examinado. Copiar uma ementa sem essa checagem pode levar à utilização de um precedente inexistente ou inadequado, mesmo quando a redação da ferramenta parece tecnicamente sofisticada.

Uma rotina de revisão proporcional ao risco

Imagine uma equipe que deseja resumir um conjunto de documentos para uma reunião interna. Antes de começar, ela precisa definir quais informações podem ser processadas, quem fará a conferência e como o resultado será armazenado. Depois, deve comparar o resumo com os originais. Datas, valores, nomes e condições merecem atenção específica, porque pequenas alterações podem mudar a compreensão de um fato relevante.

O mesmo raciocínio vale para modelos de contratos e manifestações. Um texto reaproveitado pode manter referências a pessoas, situações ou obrigações de outro caso. A revisão deve examinar o conteúdo inteiro, incluindo anexos e campos aparentemente secundários. Automatizar uma etapa não elimina a necessidade de conhecer o documento produzido nem autoriza presumir que todas as suas informações estão corretas.

A capacitação da equipe deve acompanhar a escolha da ferramenta. Profissionais precisam saber reconhecer respostas genéricas, localizar fontes e interromper o uso quando houver dúvidas sobre confidencialidade. Criar regras simples de utilização ajuda: estabelecer aplicações permitidas, indicar situações que exigem autorização interna e registrar quem responde pela aprovação final. Essas decisões tornam a produtividade mais previsível e permitem corrigir falhas de procedimento.

Produtividade que pode ser avaliada

O tempo economizado deve ser medido junto com o esforço de revisão. Se uma ferramenta produz rapidamente um texto que exige extensa correção, o benefício pode ser menor do que parece. Um teste com tarefas administrativas de baixo risco permite comparar resultados e identificar usos realmente úteis. A avaliação deve considerar clareza, precisão e segurança, além da velocidade de execução.

A adoção responsável de novas tecnologias exige critérios claros na advocacia. Em novembro de 2024, o Conselho Federal da OAB aprovou recomendações para o uso de inteligência artificial generativa na prática jurídica, com ênfase na confidencialidade das informações dos clientes, na observância do Código de Ética e na transparência quanto ao uso dessas ferramentas. O escritório que estabelece critérios antes de automatizar consegue decidir melhor onde a ferramenta ajuda e onde o cuidado humano precisa permanecer mais intenso.